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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Exposição | A Prisão de Kafka


[A Prisão de Kafka]

Sala Estúdio, Biblioteca FCT Nova
Campus de Caparica
Onde se "fala" de Kafka, da Metamorfose e muito mais...
De 28 de Janeiro a 29 de Abril (prolongado)
Uma iniciativa do Núcleo de Literarura AEFCT



O que faz com que Franz Kafka seja um dos escritores mais emblemáticos de todos os tempos? Porque é que “A Metamorfose”, uma obra literária com um século de existência, é ainda hoje lida? As coisas não mudaram assim tanto em cem anos? Teremos evoluído em algumas coisas e noutras nem tanto? Será que daqui a cem, duzentos ou mil a obra de Kafka irá continuar a ser lida? Gregor Samsa é um mero caixeiro-viajante do início do século XX ou é muito mais que isso? Será que amanhã serei o próximo a sofrer a metamorfose e acordarei transformado num gigantesco insecto? Será que Franz Kafka tem poderes especiais para que fiquemos com uma série de dúvidas existenciais após lermos um dos seus livros?

Estas são algumas das muitas perguntas que fazemos a nós mesmos quando abrimos a porta à obra de Franz Kafka, neste caso mais precisamente à sua obra mais emblemática: “A Metamorfose”. É difícil ficar indiferente à história de Gregor Samsa, o tal caixeiro-viajante que é visto como fonte de sustento pela família e que numa manhã ao transformar-se num insecto gigante passa a ser visto como um fardo, um elemento fútil e desagradável. As perguntas surgem à medida que percorremos o livro, são pouco mais de noventas páginas mas cada uma tem um poder imenso sobre os leitores. O mundo à nossa volta altera-se e muitas perguntas para as quais não temos resposta imediata surgem, só depois de muito reflectir é que conseguimos encontrar essas respostas, se é que as conseguimos mesmo encontrar.

“A Metamorfose” remete-nos para um lado que é cada vez mais comum na sociedade em que vivemos: o facto de sermos cada vez mais vistos como elementos mecânicos mergulhados num bidão de papeladas e burocracias, e não como pessoas que somos. A ciência, da indústria, e do pensamento lógico foram coisas que evoluíram imenso no último século, conseguimos quase atingir os limites daquilo que fora considerado quase sobrenatural e continuamos ainda a caminhar para os ultrapassar neste aspecto. No entanto, há coisas que, de facto, ficaram um pouco para trás, como a nossa condição enquanto seres humanos, os afectos, a capacidade de compreensão, a gratidão, entre outras condições que nos definem e que têm sido menos valorizadas à medida que os tempos correm.

Franz Kafka não tinha poderes especiais, ou melhor, tinha-os, mas não aquilo que vulgarmente se entende por “poderes especiais”. Se Kafka resolveu escrever uma história sobre um homem que se transforma num insecto foi talvez porque lhe surgiram também dúvidas semelhantes às que nos surgem quando lemos a sua obra, talvez por também ter sentido ou testemunhado situações semelhantes com as quais tropeçamos todos os dias. O facto de ter sido também um caixeiro-viajante, trabalhador numa companhia de seguros, certamente tornou mais fácil a transformação desta alegoria para o papel e a sua partilha para connosco leitores de forma contaminante. Este foi provavelmente o maior poder que Franz Kafka teve e ainda hoje continua a tê-lo. 

Outras obras para além de “A Metamorfose”, como “O Processo” que aborda a história de um homem que se envolve num longo processo criminal sem saber o porquê de estar envolvido, e “Carta ao Pai” (um livro póstumo, próximo de um texto) baseado numa carta escrita ao seu pai onde demonstra a sua difícil relação com a sua figura paternal, marcam-nos também do mesmo modo. O estilo literário e a influência de Kafka foram de tamanha grandeza que a palavra “Kafkiano” entrou nosso vocabulário sendo este um adjectivo que caracteriza algo como confuso, absurdo, surreal, vertentes que são cada vez mais evidentes no nosso quotidiano e nos tempos que correm. Franz Kafka conseguiu fazer uma representação do absurdo pegando em pedaços surreais da realidade que nos rodeia transformando-os em palavras e frases que deixam marcas no nosso mundo que é cada vez mais obscuro e frio. Em suma, um mundo que está cada vez mais longe da definição daquilo que é humano.


Gregor Samsa

My student arrived with the Metamorphosis under his arm. We’d agreed to meet every week to discuss books. We’d decided on Kafka, specifically in regard to Gregor’s recent withdrawal into his (beetle) shell. We discussed the meaning of the charwoman’s final sweep of the broom, his Mom and Dad’s relief, and Grete’s body gratefully budding into a hymn to spring. The text lets the reader observe the aftermath of the prodigious deed, the unquestioned portent, the useless miracle of transformation and decay. We observed how Kafka portrays a perversely Darwinian world where beings evolve towards extinction and adapt themselves to exclusion: a life falls through its species’ genetic cracks, a mind exists with no evolutionary awe, and all that matters are the contingent demands of an old Empire’s laws. We tried to understand Gregor’s inhuman speech: the linguistic code of the cosmic unfit. 

Then he diagnosed Gregor’s condition: the sociological realities of exile in the Prague ghetto, the symptoms of family dysfunction, the unspoken rage between father and son, the indebtedness to despotic boss and symbolic order. “This experience of the inhuman is the important thing, isn’t it?”, my student commented, “the lack of communication between one being and another, the lost opportunities to reveal one’s heart, the absence of love which truncates lives.” Just beyond the young man’s words I heard Gregor knocking at a door Kafka never mentions; I saw that questions are like doors that rarely open. I heard Gregor at last ask his question. (What was his question?)

I listened to my student’s diagnosis of Gregor’s life. For a moment the office was lit by mid-afternoon sun and a young man’s emotion. I actually saw Gregor standing before us—his unseeing eyes, his throat raw from the utterances of invertebrate garble, his body a howl of shame. 

I thought: how shall I answer him? That after the diagnosis is completed, the malady remains? That the quantification of pain adds up to an irrational sum? That, simply put, life has no cure? Or else that Gregor is not a monster but rather an address? 

I said nothing. I let him be: Gregor’s lost brother burying the recently dead. And I admired the way youth requires the urgency of hope. So I let myself be warmed by the mid-afternoon sun and a young man’s speech. It’s the reason we’re here, I thought: to know monsters while choosing to remain lucid; to seek refuge from earth while remaining within its reach.




We’re on earth to love the questions, to respond to the desolate cry that can’t be heard. 




Christopher Damien Auretta 
in A Small Atlas of Earth, In Recollection of Legacies and Patterns of Growth)




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